Sobre Adão e Eva

“Só existem macho e fêmea!”, dizem muitos religiosos, misturando numa salada sexo, gênero e sexualidade.
Gostaria de pegar emprestada a ilustração do paleontólogo e vlogger Pirulla, que separa esses três conceitos em três barrinhas:

Sexo:

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pessoa testiculada – pessoa intersexual – pessoa ovariada

Trata de nossos caracteres sexuais, é uma categoria estritamente biológica. Aí entram o macho, a fêmea e o grupo de pessoas cuja variação de caracteres sexuais (cromossomos, gônadas e / ou órgãos genitais) não é totalmente masculina nem totalmente feminina, as pessoas intersexuais. Então nem nessa afirmação os fundamentalistas religiosos acertaram.

Sexualidade:

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Heterossexual – bi/pansexual -homossexual

Por quem nos sentimos atraídos afetiva e sexualmente.

Gênero:

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Mulher (cisgênero e trangênero) – gêneros não binários – homem (cis e trans)

Gênero diz respeito à identidade e ao papel de pessoas em sociedade. Segundo a perspectiva psicológica construcionista, não faz sentido se falar em “dois gêneros da espécie humana”, já que definições de gênero são dependentes do contexto social em que acontecem. Também não se sustentaria afirmar que há uma qualidade estática nos papéis de gênero, já que são construtos sociais dinâmicos.

As três barrinhas funcionam de forma independente, então é possível existir uma pessoa testiculada homem heterossexual, uma pessoa testiculada mulher homossexual e tantas combinações quanto possível.

Quando tratamos de gênero entramos num campo complexo porque o que conhecemos é que há diferenças inatas entre pessoas ovariadas e pessoas testiculadas, mas ainda não há consenso em relação à extensão dessa diferença.

Uma coisa podemos afirmar com certeza, mesmo a partir de uma perspectiva história da nossa própria cultura: roupas, cortes de cabelo, cores e brinquedos não estão fundamentalmente associados a nenhum sexo. É aí que o peso da imposição de gênero como categoria política se manifesta.

Somos treinados para preferir certos objetos e comportamentos enquanto outros nos são proibidos de acordo com nosso sexo, porém eles podem não refletir nossas preferências subjetivas. Na realidade eles podem ser uma forma de tortura como é o caso para crianças transexuais.

Vamos ao FAQ

1- Uma criação neutra em relação a gênero vai fazer a criança “se tornar” homossexual ou transexual?

Não.

2- Vocês inventaram isso?

Não. O movimento gender-neutral parenting é enorme e inclusive na Suécia as escolas de educação infantil são neutras em relação a gênero.

3- Na criação neutra em relação a gênero se esconde a genitália da criança da própria criança?

É claro que não. A criança conhece a própria genitália e, enquanto é pequena, sabe apenas que ela serve para fazer xixi. Quando crescer e se interessar, vai saber tudo sobre o próprio sexo biológico (pessoa ovariada/testiculada)

4- E se força a criança a comportamentos indesejados por ela em nome da neutralidade ou se proíbe que ela se expresse de acordo com o binarismo de gênero (se entenda como homem ou mulher)?

Jamais. Isso é exatamente o oposto da proposta. A partir do momento que a criança expressa uma preferência, ela será respeitada, seja qual for.

5- Por que vocês optaram por uma criação neutra em relação a gênero?

Porque pessoas não necessariamente se adequam ao gênero a que foram designadas no nascimento. Como há muito mais na categoria política gênero do que na categoria biológica sexo (lembram? Cores, comportamentos, roupas…), algumas dessas imposições automáticas são aceitas, outras são aceitas com resistência, ainda outras são interpretadas como violações, opressões e podem diminuir consideravelmente o bem-estar e a qualidade de vida de uma pessoa.

Pessoas socializadas como homens comumente têm seu desejo de usar vestidos, pintar as unhas ou brincar de princesa negado. Eu fui socializada como mulher (apesar de hoje essa designação não fazer nenhum sentido para mim) e, como mulher, aprendi que deveria fazer as unhas semanalmente e usar salto alto em eventos ou situações formais. Até os 18 anos eu praticava tais ações sem questioná-las, apesar de sempre tê- las considerado incômodas, e a partir daí me permiti cessá-las. Mas aí que vem o pulo do gato: não sem custo social, para minha autoimagem e senso de identidade.

Até hoje me sinto mal, não me sinto suficientemente livre para ir a uma entrevista de emprego sem depilar as pernas, por exemplo. E isso é uma chateação ínfima e irrelevante perto do que uma pessoa transexual que teve sua identidade de gênero negada passa.

Quando optamos por uma criação neutra em relação a gênero nossa primeira motivação foi essa: respeito à liberdade individual. Queremos que nossa criança possa fazer as próprias escolhas sem se sentir mal por isso. Vamos mostrar que existe uma convenção social e que essa convenção muitas vezes aprisiona e limita e por isso optamos por não apresentá-la como a verdade, mas como uma das possibilidades de interpretação do mundo.

Qualquer bullying que venha a acontecer será culpa e erro de quem o propaga, e nos parece muito mais relevante criar uma pessoa livre e satisfeita com as próprias escolhas que fez em relação ao próprio corpo, à própria imagem, ao próprio comportamento do que adequá-la a um modelo artificial sem fundamentação para tal.

6- E como promover uma criação neutra em relação a gênero?

Enquanto a criança ainda não expressa suas próprias preferências em relação à autoimagem e comportamento, as referências são neutras e/ou variadas.

– Em relação a pronomes, como ele/ela, substituir pelo nome da criança.

– Omitir artigos como o/a

– Usar roupas atribuídas ao gênero masculino e feminino, de forma alternada ou misturada, e roupas consideradas neutras ou unissex.

– Oferecer brinquedos comumente atribuídos ao gênero masculino e feminino, brinquedos considerados neutros e brinquedos semi-estruturados.

– Não reforçar estereótipos de gênero do tipo “Menino não chora”, “É bagunceiro porque é moleque” ou “Senta que nem mocinha”.

– Respeitar as preferências da criança e não forçar, proibir e/ou ridicularizar comportamentos baseado em gênero.

 

Meu relato de parto natural hospitalar

Meu trabalho de parto começou no domingo, 7 de setembro, dia em que acordei conversando seriamente com o bebê, em cima da bola de pilates: “está na hora de você se aquietar para nascer”.  Durante toda a gestação o bebê se mexeu muito. Começou a se mexer antes da metade do quarto mês e daí em diante de forma crescente, especialmente à noite. Eram sessões de uns bons minutos de desassossego no final da gestação e, ao me aproximar das 40 semanas, esse comportamento me levou a acreditar que a gestação se prolongaria. Todos diziam que o bebê ficaria mais quietinho alguns dias antes de nascer, e era por esse sinal que eu esperava. A barriga enorme, as dores ósseas e o remelexo do pequeno me fizeram ter aquela conversa franca com ele naquele domingo. Meu avô materno me chamava de agoniada na infância, pelo gosto de não parar quieta; meu filhote parecia ter herdado o apreço pelo movimento e ignorado o pedido.
Ao meio-dia senti a primeira contração. Eu desejava tanto que o momento do trabalho de parto chegasse que desconfiei do meu julgamento: devem ser pródromos, é uma cólica tão leve, eu ainda nem perdi o tampão. Meu marido começou a anotar o intervalo das contrações-cólica e isso aumentava a minha ansiedade. Os intervalos não estão regulares. Não era pra eu sentir mais uma agora?
Havia um quadro branco em nossa parede com os três motivos pelos quais ligar para a doula: dez contrações em uma hora, rompimento da bolsa e dúvida. Ficamos com a dúvida e ligamos pedindo orientações. “Você está começando o trabalho de parto, se alimente bem, procure uma posição confortável durante as contrações e anote os intervalos entre elas. Quando precisar me ligue e irei até aí”. Eu duvidei: mas está tudo tão tranquilo, eu quero muito que seja o trabalho de parto, mas não parece.
Fui assistir a filmes ruins com meu marido, para rir e me distrair da tensão e da ansiedade. No final do primeiro filme ele, ao informar o intervalo e a duração das contrações para a doula, resolveu ser o momento de chamá-la até nossa casa para nos auxiliar. Eu discordei, não senti que precisava de nada além da companhia de meu marido e da distração dos filmes para lidar com aquele momento.
Ela chegou e me senti ainda mais tranquila. A tensão das anotações de contrações cessou, o auxílio com a respiração ajudou. Eu interagia com o ambiente e em curtos momentos me voltava para a sensação das contrações. Depois de um tempo em casa e de minha tentativa frustrada de descansar, a doula disse que ainda demoraria para engrenar o trabalho de parto, que voltaria para casa, que eu descansasse e ligasse novamente quando sentisse que precisava ligar. Senti desânimo e medo de que as indicações de TP cessassem.
Não demorou muito mais de uma hora depois de sua partida para o cenário mudar totalmente. Eu não conseguia mais assistir ao filme que passava na tevê, ficava mais de olhos fechados prestando atenção a meu interior que aos estímulos externos. E meu interior sentia frio e calor, sentia ânsia de vômito, sentia algo longe de cólicas, sentia um descontrole muscular tal cãimbras no baixo ventre seguidas de fisgadas pungentes na lombar. Eu pedi a meu marido uma massagem vigorosa na lombar na sequência das contrações, não conseguia mais lidar com a dor sem intervenções. A posição agora era só uma: sentada na beira da cama. Vocalizar um grande “ahhhh” ajudava e a essa altura eu não mais os continha por vergonha. A doula chegou e eu já estava em um estado naturalmente alterado de consciência. Recusei uma manta aquecida e extraía meu alívio das massagens nas costas. Ela recomendou a meu marido que dormisse, para que pudesse estar descansado e me ajudar. Ele dormiu um pouco e acordou quando eu não mais conseguia me manter sentada durante as contrações e ficava em pé no canto do quarto, me movimentando e buscando alívio. As contrações estavam começando a ficar intensas e fraquejei pela primeira vez. Eu disse à doula que não daria conta, não conseguia imaginar que aquele desconforto era o início de uma jornada que eu finalizaria. Eu precisava encontrar um ponto de apoio seguro que me permitisse atravessar com coragem aquele percurso. Foi quando chamei meu marido para o chuveiro. A água quente massageando as minhas costas trazia alívio durante as contrações enquanto eu despejava todo o meu peso nos ombros do meu marido, fazendo a báscula do quadril e flexionando os joelhos. Ao final das contrações eu recebia uma massagem intensa na lombar e então abria o chuveiro para sentir a água gelada me trazendo de volta à consciência. Por vezes pedia para beber água nesses intervalos, que foram se estreitando cada vez mais, ao ponto que o tempo de meu marido trazer um copo d’água era o limite da próxima contração. Assim ficamos por cinco horas, mais ou menos, alheios ao mundo, às horas, a tudo que não fosse permitir que meu corpo realizasse o que era necessário. Nessas cinco horas houve vários momentos em que tudo o que conseguia pensar era como conseguir uma analgesia. Houve também muitos momentos de reafirmação da minha potência. Eu era capaz, eu estava conseguindo, estava indo bem, estava linda! E como eu estava grata. Debaixo daquele chuveiro eu e meu marido fizemos um pacto secreto de confiança e entrega. Estávamos juntos entregues àquela experiência – e ele me doulava de maneira sublime. Nosso objetivo era o mesmo e o buscávamos como unidade. Começávamos ali a rede de segurança que tanto nos ajudaria depois da chegada do filhote.
O despertador que nos acordava diariamente tocou anunciando as seis horas da manhã. Soava implausível, tamanho o arrebatamento do fluxo em que nos metemos. Eu só me lembrava do grupo de gestantes que frequentamos e da ideia que fixei através dele: o período de transição da dilatação do colo de útero à fase expulsiva do TP era o pior, o mais intenso e menos espaçado para as contrações. Eu estava terminando de passar por ele e sentia então uma vontade leve de empurrar. Estava tão desnorteada que me esqueci de comunicar isso à doula. Mas, graças ao despertador, retomamos o contato com o mundo, o que significou fazer exame de toque, constatar oito centímetros de dilatação e planejar a saída para o hospital.
Segunda-feira, fluxo para o Centro de horário de rush. Foram quarenta minutos até o hospital sem a possibilidade de ficar na posição que me aliviava – de pé -, sentindo cada irregularidade do asfalto, cada trepidação intensificando as dores. O trecho de paralelepípedos um pouco antes da chegada ao hospital pareceu interminável. Ao chegar, meu marido foi dar entrada em minha internação e retirar a chave do quarto em que nós ficaríamos. Enquanto isso eu tentava caminhar por um corredor do hospital, aliviada por estar novamente de pé, junto à doula. Eu passei mais tempo esticada contra a parede recebendo massagens que conseguindo andar de fato. Subimos até o quarto – o último do corredor – e voltamos ao ambiente escuro, à nudez e, para minha satisfação, ao chuveiro. Mais um exame de toque, estava com dilatação total, mas a bolsa das águas estava funcionando como uma barreira impedindo o bebê de descer, e não parecia dar sinais de se romper. A partir dali a instrução era me movimentar bastante, simulando pulos com a flexão do joelho, para facilitar o rompimento da bolsa. Foram mais três horas debaixo do chuveiro, agora o do hospital, com meu marido, enquanto a doula e a enfermeira obstetra faziam a verificação das condições do bebê e me orientavam quanto ao curso do TP. Estava claro para mim que meu TP estava estagnado. Fazia algum tempo que sentia as contrações com a mesma intensidade e regularidade, a vontade de empurrar ainda era fraca. A doula me disse que a obstetra, que estava a caminho, sugeriria o rompimento da bolsa quando chegasse. E assim o fez. Eu havia lido casos de rompimento desnecessário e incorreto da bolsa que prejudicaram a saúde da criança e tive muito medo de realizar o procedimento. A obstetra garantia que era o recomendado para meu caso e me explicava o que aconteceria depois do rompimento: eu sentiria vontade de empurrar e as dores diminuiriam. Se até aquele momento o meu corpo conduziu meu parto, exigindo apenas conformidade, era chegado o momento de produzir uma decisão racional, uma escolha ativa e consciente, quando eu me sentia incapaz demais, com medo demais de decidir por mim mesma. A princípio quis tentar a execução de mais movimentos e aguardar um rompimento espontâneo. Eu temia pelo bebê, temia pela novas dores do período expulsivo e queria não precisar tomar uma decisão ativa para que o trabalho de parto evoluísse. Uma hora e muita insistência depois eu tive a coragem de permitir que  o desconhecido fosse então instaurado sem que eu eu estivesse anestesiada – denotativa e conotativamente. Esse foi mais um momento de grandeza que o parto me trouxe: um salto de fé compulsório, um precisa-acontecer-quer-você-esteja-confortável-ou-não.
Muitos não sabem que se escolhe um parto natural, sem alívio farmacológico da dor, não porque se deseja sofrer, mas porque uma analgesia aumenta exponencialmente e em cascata a possibilidade de intercorrências no parto, muitas delas indesejadas pela mulher e prejudiciais para o bebê, como a necessidade de se parir em posição ginecológica – uma posição anti-fisiológica, em que se empurra o bebê contra a gravidade -, de se fazer uma episiotomia, corte na vagina em grande parte necessário a uma mulher em controle da própria musculatura e livre para se mover, de se extrair o bebê a vácuo ou fórceps. Opta-se por encarar a dor porque ela é gerenciável e porque encará-la é a melhor forma de garantir um período expulsivo eficiente e livre de intercorrências.
Após o rompimento da bolsa fiz força para o bebê descer ele desceu três centímetros. Depois disso eu me lembro pouco, estava em um estado de consciência alterado novamente, mas sei que as dores foram quase totalmente suavizadas pela vontade irresistível de empurrar o bebê. A sensação que tinha era a de duas forças de grande magnitude – a contração e o puxo – se anulando, tornando o período expulsivo o que menos envolvia sensação de dor. Eu me sentia potente novamente a cada força e sentia aquela saga chegando a uma conclusão. Até que a obstetra avaliou o andamento e disse “Vai nascer, vamos para o CO”. O último quarto do corredor parecia infinitamente distante do centro obstétrico, a caminhada era acompanhada de contrações, puxos e paradas. Estranhei o ambiente do CO: uma cama alta, aparelhos e uma bancada de instrumentos. Eu treinava há um mês para parir de cócoras, como eu iria parir de cócoras ali?
Um arranjo de panos e banqueta e logo tínhamos um cantinho para que eu ficasse de cócoras. Numa outra sala eu ouvia outra mulher a parir, fazendo os sons mais incríveis que já ouvira. Eu não estava gritando daquele jeito, será que seria mais fácil para mim? Algumas contrações, parecia bem mais difícil empurrar um bebê que o epi-no (aparelho de treino de expulsão). A obstetra então verificou que a posição da cabeça do bebê não estava favorável, seria preciso rotacioná-la 45°. Fui para aquela mesa alta cuja função eu não havia compreendido e senti as dores fulminantes de contrações sem alívio devido à limitação de posição. Foi desesperador.
Impedir que mulheres se movam livremente em seus trabalhos de parto é uma crueldade desmedida, algo próximo à tortura. Felizmente já vigoram as recomendações da OMS descreditando o mito da posição de litotomia e da restrição de movimentos, enquadrando seu uso desnecessário como violência obstétrica. Eu desejo que representações midiáticas ajudem a desconstruir essa ideia tão imiscuída no imaginário cultural, da mulher parindo deitada de costas com os joelhos flexionados, que reforçam e naturalizam uma prática tão contra-sensual e violenta.
Durante uma contração a cabeça do bebê foi rotacionada e pela primeira vez gritei como a parturiente que ouvi. Tão logo a manobra se findou voltei à banqueta. A banqueta não me permitia a amplitude de movimentos que havia treinado em casa, então pedi para ficar de cócoras sem ela. Eu conseguia então fazer toda a força que me parecia possível e me concentrava exclusivamente nisso. Esqueci inclusive de respirar profundamente, o que diminuiu o aporte de oxigênio para o bebê e fez seus batimentos cardíacos caírem. A vácuo-extração foi cogitada, mas antes recebi oxigênio e instruções de respirar funda e lentamente. Isso foi o suficiente para que os batimentos do bebê voltassem ao normal e eu pudesse continuar me dedicando a empurrar. Mais de uma hora de expulsivo e então a cabeça do bebê estava do lado de fora. Eu assisti a alguns partos em que a mulher se mantinha calma e relaxada após a expulsão da cabeça, aguardando a próxima contração que traria o bebê ao mundo. Comigo foi diferente. Aquela situação de transição entre mim e o mundo foi agoniante o bastante para que eu a tornasse breve, e logo o resultado daquele processo repousasse no meu colo, do lado esquerdo, se remexendo e chorando muito e muito alto.
Eu fiquei surpresa por ver um bebê! Estava todo o tempo tão concentrada em ouvir o meu corpo que desvinculei o nascimento do pequeno do trabalho de parto. Meu marido chorava e me dizia para dar as boas vindas, e assim o fiz, arrebatada pelo que me parecia tão inesperado e inacreditável. Não chorei, vivi intensamente uma descoberta extasiada por conhecer meu filhote. Ele tinha pés e mãos bem magrinhos, apesar de seus 3,750kg, e eu prometi dar a ele pés e mãos gordinhos – além de todo o amor do mundo, é claro.
Mica

Para o bem das crianças, inviabilizam a publicidade infantil

Lamento o jornalismo senso comum, mesmo que os jornalistas não tenham a obrigação de possuir conhecimento específico ou compromisso com a ciência. É lamentável que opinião infundada seja cuspida em meios de comunicação de massa sem ao menos o conter o rótulo “opinião infundada”.
Vamos ponto a ponto demonstrar por que o lamentável artigo “Para o bem das crianças, inviabilizam a programação infantil na TV”, de Guy Franco, é um desserviço, se busca informar.

1- “Para o bem das crianças, inviabilizam a programação infantil na TV (…)”

A programação infantil em TV aberta não é inviabilizada com a proibição de publicidade dirigida ao público infantil, o modelo de TV comercial é afetado por restrições à publicidade infantil (de 30 horas diárias de conteúdo infantil em TV aberta na década de 80, temos menos de 10 atualmente), mas ele não é o único existente nem o melhor possível.
A TV no Brasil surgiu em 1950, seguindo exclusivamente o modelo de TV comercial privada americana até 1968, quando a emissora estatal TV Universitária de Recife entrou no ar. Nesses anos de existência, o modelo de TV comercial primou por conteúdo próximo ao interesse de seus patrocinadores, negligenciando o intuito da radiodifusão (de acordo com o Código de Ética da Radiodifusão no Brasil) que deveria aliar entretenimento “à informação do público em geral, assim como à prestação de serviços culturais e educacionais”, criando um modelo voltado à rentabilidade cujo maior objetivo para atingir tal fim são os “pontos no Ibope”. O espectador deixa de ser cidadão e passa a ser consumidor.

“A exibição de programas infantis torna-se conveniente na medida em que se constitui num produto lucrativo às emissoras, porque conquistam satisfatórios índices de audiência, veiculam propagandas (merchandising) e influenciam as vontades consumistas das crianças.” (FERNANDO; MACHADO; RODRIGUES, 2006, p. 3)

Essa lógica de que é preciso se submeter aos anúncios para se ter acesso ao conteúdo é a lógica das corporações de TV comercial que imperam em nosso país desde que a radiodifusão nele existe. Para Regina de Assis, ex-presidente da MultiRio, empresa que há 20 anos desenvolve ações educativo-culturais voltadas para a pesquisa de novas linguagens e a realização de produtos em diferentes mídias, comprometidos com o projeto educativo da cidade do Rio de Janeiro, as TV abertas não estão tão preocupadas com a formação das crianças, sua importância e herança cultural. Para ela, há problemas de financiamento, mas o que falta é uma preocupação maior dos programadores com a importância deste setor. A MultiRio recebeu uma condecoração da Unesco por uma das melhores práticas da educação em mídia na América Latina, recebeu prêmios no festival Animamundi, no Prix Jeunesse Ibero Americano, além do Prêmio Japão.
O modelo de TV que emergiu na Europa no século passado é da TV estatal, cujo conteúdo era controlado pelos governos dos países em que se inseriam e, portanto, transmitia informações enviesadas pela visão governista corrente. Com o processo de democratização do pós-guerra, a sociedade passou a participar da gestão dessas empresas de radiodifusão, por meio de conselhos gestores. Surgiu, então, o modelo de TV pública, como a BBC britânica, a PBS americana e a NHK japonesa, financiadas pelo contribuinte e de conteúdo democrático e independente de gestões ou preferências governistas, voltado para a contribuição social, a informação, a cultura e a educação.
Na Noruega, em Quebec e na Suécia, toda a publicidade direcionada ao público infantil é proibida. Em Quebec, mais de 40% do conteúdo da rede de TV aberta Télé-Québec é composto por programação infantil. As produções infantis canadenses estão entre as de maior qualidade do mundo em relação à promoção de valores sociais, reflexão crítica e criatividade (em estudo realizado pela Universidade de Montreal em 2010). Em 2013, três programas infantil noruegueses foram indicados ao prêmio Emmy International Kids Awards, que premiam os melhores programas infantis do mundo. Um deles, “Energikanpen”, recebeu o prêmio. Na Suécia, a rede Sveriges Television (SVT) exibe a programação infantil pelo programa “Bolibompa” durante os dias de semana pela manhã e possui um canal exclusivamente dedicado à conteúdo infantil, o “Barnkanalen”.
No Brasil o modelo de TV pública de fato (com garantias legais) surgiu em 2007 com a TV Brasil, que é finciada pelo orçamento da União e também por patrocínios culturais, prestação de serviços, e doações, mas iniciativas como a TV Cultura, financiada pela Fundação Padre Anchieta, desde a década de 1980 primam por esse modelo voltado à valorização do cidadão e ao exercício crítico da cidadania, com grande programação destinada ao público infantil, produções próprias e documentários, tendo reconhecimento de público e crítica por meio de prêmios internacionais. O maior público da TV Brasil é justamente o público infantil.
A história internacional da radiodifusão demonstra que o modelo de TV pública não só é viável como é necessário para romper com a lógica do financiamento publicitário a partir de inserções comerciais e promover programação voltada à sociedade: crítica, informativa, cultural, educativa, que também entretém.

2- “(…) Nenhuma emissora exibe mais desenhos animados”

A emissora de TV aberta comercial Rede Globo não exibe mais desenhos animados semanais desde 2012, migrando a programação infantil para o canal de TV a cabo Gloob, mas ainda há mais de 6 horas de programação infantil disponível na TV aberta brasileira atualmente, tendo a TV Cultura como líder em horas. Como mencionado anteriormente, o investimento em conteúdo pela TV comercial está diretamente vinculado a quão conveniente (e lucrativo) ele é, o que torna a defesa indiscriminada desse conteúdo questionável.

Há muito se forjou o termo “babá eletrônica” para se referir à programação de entretenimento infantil na TV, que mantém as crianças brasileiras em frente à TV por 5 horas e 22 minutos por dia (2012), maior média mundial, e retira dos cuidadores a necessidade de supervisão e até mesmo presença durante esse tempo. Defender que a grade de programação se amplie desconsiderando a qualidade e os riscos que a publicidade infantil oferecem às crianças é prezar pelo lucro das empresas de TV comercial, pelo lucro dos patrocinadores e pela comodidade dos pais, mas ignorar por completo o interesse das crianças.

A proteção às crianças de publicidade infantil não é uma arbitrariedade legislativa, ela se baseia em estudos que concluíram que o mecanismo da publicidade é o da associação entre personagem-produto (transformando a marca em símbolo) em retroalimentação. A representação midiática isola preferências por determinados brinquedos e personagens para determinado gênero e faixa etária, por exemplo, a animação da Barbie para meninas de 9 anos; essas preferências são então reforçadas pela publicidade, em que o personagem com que se criou um laço afetivo é então apresentado como produto disponível para essa menina de 9 anos. Esse produto é necessário para que se sinta da forma como a animação demonstrou e o comercial reforçou, e consumir o personagem-produto é o meio para se sentir e ser da forma que se espera a partir da interação com tal conteúdo.  Está estabelecida a partir de então uma visão materialista da realidade em crianças.

Não poder vivenciar o que a criança apreende como necessário para sua autorrealização e senso de identidade é um evento difícil e negativo que, segundo Kasser e Kanner (2003) é internalizado e cria senso de culpa na criança, podendo suscitar transtornos como a depressão e a ansiedade. A visão materialista da realidade em crianças cria, além de um senso de insatisfação com a própria vida, tensão em suas relações sociais, especialmente na relação com seus cuidadores.

O conceito atual de infância, pós-revolução industrial, é o de ser improdutivo economicamente, que produz demandas aos cuidadores e à sociedade. O que advém da relação da publicidade direcionada ao público infantil e a criança como indivíduo improdutivo são quatro eixos de violência:
– da criança em direção aos cuidadores, através do apelo emocional aos cuidadores para a compra do produto, que passam a desejá-lo porque sua criança o deseja;
– da publicidade em direção aos cuidadores, que afirma que todos os desejos devem ser atendidos, inventam necessidades e oferecem diretamente argumentos às crianças sobre por que elas deveriam desejar um produto específico;
– da sociedade em direção aos cuidadores, pelo papel social estabelecido dos pais de atender aos desejos da criança, oferecer a elas a ideia de que tudo é possível, desejo de que a criança tenha o que é melhor, exclusivo, e promove dessa forma uma estratificação social entre os que podem consumir e os que não podem;
– da expectativa que os cuidadores têm em relação a eles mesmos, “eu deveria ser capaz”, “é responsabilidade minha oferecer…”, “eu não tenho tempo para oferecer, então preciso compensar….”

Ao mesmo tempo uma nova forma de violência é impingida: a transmissão do valor do consumo consciente às crianças é universalmente defendida e imputada aos pais, e não se defende a lei que ampare e garanta a aplicação desse valor, protegendo as crianças da construção de uma visão materialista. Não se percebe que a tarefa de promover tal valor não é simples, visto a inabilidade de pensamento abstrato de crianças menores de 12 anos, e da construção material personagem-produto que é feita pela publicidade. É uma questão que cabe a educadores, dentro da proposta de Alfabetização Midiática e Informacional, um complexo tópico abordado em 2011 pela Unesco como programa de formação continuada para profissionais da educação (http://unesdoc.unesco.org/images/0022/002204/220418por.pdf). Imbuir cuidadores, que muitas vezes eles próprios não são alfabetizados em mídia, dessa tarefa é, no mínimo, absurdo.

3- “A proibição é o Estado assumindo a incapacidade de lidar com um problema (ou um suposto problema).”

A proibição de publicidade direcionada ao público infantil é o reconhecimento correto do Estado da circunstância atual que incapacita as pessoas a lidarem com o problema, abarcando para si a responsabilidade de regulamentar por lei e protegendo as crianças de um mecanismo comprovadamente nocivo.

4- “Autoridades preferem proibição ao povo instruído que toma as decisões que julgam melhores para si.”

É absurdo defender que as pessoas tomem as decisões que julgam melhores para si em detrimento de leis quando se trata de interações potencialmente danosas. É como defender que não haja lei que criminalize o homicídio, que se deixe que as pessoas decidam se é melhor para si matarem as outras.

5- “É delegar soluções a um bando de políticos pançudos, com marca de pizza debaixo dos braços; como se eles soubessem, à distância, o que é melhor para o seu filho.”

A resolução 163, que dispõe sobre a abusividade do direcionamento de publicidade e de comunicação mercadológica à criança e ao adolescente (http://www.mpba.mp.br/atuacao/infancia/publicidadeeconsumo/conanda/resolucao_163_conanda.pdf), é do Conanda, composto por entidades da sociedade civil e ministérios do governo federal. Segundo ela, a publicidade infantil fere o que está previsto na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código de Defesa do Consumidor. O Instituto Alana, uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que trabalha para encontrar caminhos transformadores que honrem a criança, integra o Conanda, na condição de suplente, e contribuiu junto aos demais conselheiros na elaboração e aprovação desse texto.

6- “Proibir a publicidade voltada para as crianças é passar por cima da autoridade dos pais, poupar o trabalho deles de instruir e limitar suas liberdades de decisão.”

Proibir a publicidade direcionada às crianças é retirar a autoridade da publicidade sobre as decisões e o bem-estar da família e ampliar a liberdade de decisão dos cuidadores sobre consumir ou não, que produto consumir e por que consumi-lo. Como mencionado anteriormente, é desonerar os pais de um papel que estão impossibilitados de executar pelo próprio analfabetismo midiático ou pela incapacidade de crianças pequenas de compreender racionalmente questões imateriais.

7- “Mesmo que a publicidade fosse tudo o que dizem, a decisão dos pais, penso, ainda vale mais do que qualquer outra instituição”

Os efeitos da publicidade infantil são tudo o que dizem, mas, sim, existe a possibilidade de decidir ir contra a lógica da publicidade de maneira autoritária, decidindo dizer não aos apelos da criança, ou ceder indiscriminadamente a eles, mas optar por isso é cooptar com de tantas pressões e violências que se torna uma não-opção, por minar o bem-estar psicossocial da sociedade como um todo.

8- “Se algum dia houve a intenção de surgir um grande estúdio de animação ou de quadrinhos no Brasil, qualquer coisa parecida com uma Disney, Nickelodeon ou Studio Ghibli, a possibilidade, sob essa lei, foi enterrada de vez. Voltamos vinte casas.”

A maior parte dos desenhos animados que foram e são exibidos na grade infantil de TV aberta comercial é de origem estrangeira, por gerar renda em licensing e merchandising e ter custo mais baixo que de uma produção nacional própria. A partir da lógica da rentabilidade, nunca surgiriam novos estúdios de animação pelo intermédio da TV comercial.

9-  “Além de tudo, essa é uma medida que afeta principalmente aqueles com menos condições financeiras, que não têm acesso a essas mídias”

Os efeitos da publicidade infantil são ainda mais nocivos em crianças que vivem em áreas de risco social, já que elas possuem menor disponibilidade de tempo dos cuidadores, maior exposição à mídia e apresentação de valores materialistas ainda maior que crianças de áreas afluentes, tornando-as mais vulneráveis à baixa autoestima, depressão e ansiedade.

A importância do respeito na promoção da autonomia moral da criança

Cuidadores e educadores agem em direção à criança com base no que conhecem e acreditam sobre como é e do que precisa aquela criança. Muitas vezes essas crenças perpassam o imaginário coletivo e, sem maior examinação, afetam nossas práticas educativas, de cuidado e interação com as crianças. Por exemplo, se um cuidador acredita que seu bebê está o manipulando ao chorar,  sua ação será guiada por essa crença. Mudar crenças equivocadas é a chave para mudar práticas equivocadas e seus resultados.

 

Reconhecendo para respeitar

Para o epistemólogo suíço Jean Piaget, que se dedicou ao estudo do desenvolvimento cognitivo no ser humano, o bebê é incapaz de compreender regras por ter a limitação cognitiva de estar num processo de compreensão da causalidade, ou seja relações de causa e efeito, através da exploração e da brincadeira. Um bebê não produz julgamentos em relação a uma determinada ação e sua motivação é determinada por desejos imediatos, numa sucessão de direcionamento de foco a eventos estimulantes.

Uma maneira de se lidar com comportamentos perigosos ou indesejados nesse momento do desenvolvimento é através do redirecionamento, oferecendo a eles atividades alternativas, preparar o ambiente para que se adeque a sua mobilidade e seu acesso ao que a ele se destina e protegê-lo do que potencialmente lhe seria perigoso.

Espelho defronte a um colchão, móbile e barra de apoio, acesso fácil a brinquedos através de cômodas baixas
Espelho horizontal defronte a um colchão, móbile e barra de apoio, acesso fácil a brinquedos através de cômodas baixas, proteção em quinas.

A partir da produção do pensamento simbólico e da expressão através da linguagem são estabelecidas relações com o mundo externo, ainda que mediadas pela experiência individual da criança: ela depende de demonstrações concretas para compreender os eventos. É preciso, por exemplo, demonstrar que o nome de cada um dos participantes de um sorteio foi escrito e colocado na urna para que se acredite na validade do sorteio, ou que a massa do bolo foi assada no forno e se transformou em um bolo com outra cor, tamanho e textura.

Em “O juízo moral na criança”, Piaget fez observações para compreender o mecanismo de ajuste às regras pelos indivíduos, seus entendimentos de acordo com sua idade e estágio de desenvolvimento e como adquirem consciência e domínio da regra.
Segundo Piaget, as regras morais que a criança aprende a respeitar geralmente chegam até ela elaboradas pelos adultos, principalmente pelos cuidadores, ou seja, já chegam como verdades. A regra é praticada por coação dos adultos em direção às crianças, como sagrada (heterônoma), algo sobre o que não se pode arbitrar sobre obedecer ou não.
Ao se estabelecer esse vínculo de respeito unilateral, a ação acontece como obrigação e à criança resta obedecer. Em termos kantianos, trata-se da submissão da vontade, em que cada ato de obediência irrestrita às ordens recebidas pelos adultos é tido como sucesso.

Ao se estabelecer um vínculo de respeito mútuo a ação se dá pela vontade. Numa interpretação kantiana, através da heteronomia moral, da sujeição da vontade do indivíduo a outrem, há legalidade; e na autonomia, no protagonismo do sujeito, há moralidade. Só há lei moral efetiva quando a ação decorre não da obrigação, mas da apropriação das regras pelo sujeito e de sua ação como expressão da própria vontade.

 

A relação de heteronomia moral a partir da disciplina tradicional

Muitas ações de coação dos cuidadores reforçam o realismo moral da infância, a tendência a considerar as regras como algo externo, segui-las ao pé da letra, sem a compreensão de suas motivações e de julgar a gravidade do desrespeito a elas por sua consequência ou seu caráter material. Por exemplo, derramar uma jarra de suco ao tentar colocar seu conteúdo em um copo para ofertar aos cuidadores e derrubar a mesma jarra de suco porque não se está satisfeito com o sabor dele são ações diferentes. Responder a elas da mesma forma é ensinar à criança que as duas ações são idênticas, é anular as particularidades inerentes às duas, negar a ela a oportunidade de discriminar a intenção que motivou a ação, de reconhecer que não é problema um ato falho por uma dificuldade motora ou distração, de convidá-la a aceitar de forma natural a responsabilidade pela falta, ao colaborar na resolução desta (ajudando na limpeza do suco, por exemplo).
Atos morais heterônomos não proporcionam experiências de liberdade: neles a vontade do sujeito depende de algo externo, o controle, a vigilância e a punição dos cuidadores e, na ausência destes, a regra é, em geral, violada. Muitas vezes as crianças defendem regras morais cujos conteúdos desconhecem, dizem que não é bonito mentir ou bater, às vezes sem saber definir o que é mentir ou por que bater não é a solução mais eficaz para a resolução de conflitos. Essa crença, logicamente, não estará necessariamente coerente com a ação da criança, já que ser capaz de enunciar uma regra não implica ser capaz de usá-la com guia para as próprias ações.  Uma criança pode repetir “não posso mentir” (por coação de uma regra “sagrada”, não produzida por ela) e mentir justificando (racionalizando) seu comportamento em determinada situação, como ao mentir sobre a ocorrência de algo indesejado pelos cuidadores, como uma atitude violenta em direção a um colega de escola, por medo de reprovação ou punição.

 

O respeito como meio de promoção da autonomia

O respeito à criança é o esforço de levá-la a compreender o conteúdo das regras, em vez de a obediência a elas pelas figuras de autoridade dos cuidadores. É importante não ser o ditador das verdades, mas construir conjuntamente as regras demonstrando concretamente suas motivações e intenções, incentivar diferentes formas de se pensar um problema e investir nela a capacidade de resolução dos próprios problemas, questionando as regras estabelecidas.

Exemplo de observação e narração da resolução de conflitos em crianças entre 1 e 2 anos

 

Exemplo de resolução de problemas entre educadores e crianças de 7 a 10 anos de idade de forma horizontal
É preciso também o exemplo da utilização das regras pelos cuidadores (baseando-se na compreensão concreta que crianças têm sobre o mundo e de seu aprendizado pelo exemplo), a coerência na manutenção e aplicação das regras e a discriminação de sutilezas diante de conflitos cognitivos (“por que é ok desenhar no papel mas não na parede?”), para maior compreensão e internalização das regras. O principal é que as regras façam sentido, então é importante refletir sobre regras estabelecidas e ter motivos para defendê-las.
É importante demonstrar que pessoas criam regras, elas não são eternas e inquestionáveis e existem para cumprir um fim tendo em vista uma motivação. O respeito mútuo entra nessa equação como forma de reconhecer que crianças e adultos são pessoas, merecem ser ouvidos e têm responsabilidade pelas próprias escolhas. Deve-se reconhecer o erro à criança, demonstrar, caso haja, a confusão quanto à melhor maneira de lidar com uma situação para que se estabeleçam relações horizontais, de igualdade. É preciso ouvir, mesmo que a criança ainda não tenha ferramentas para explicar sua motivação, encorajá-la e ajudá-la.

 

Exemplos práticos

Respeitar o corpo de sua criança, comunicando a intenção de tocá-la, pegá-la no colo, levá-la a algum lugar.

Respeitar a ansiedade que estar com outra pessoa ou em um ambiente novo pode causar, conversando antecipadamente sobre para onde vão e o que há nesse lugar, permitindo que ela explore o local ao chegar lá.

Respeitar a construção do controle emocional, sentimentos legítimos de raiva e frustração estão presentes e cabe a você nomear, reconhecer e orientar uma maneira construtiva de lidar com esses sentimentos.

Respeitar a necessidade do corpo de se mover e ser estimulado, não se criando regras arbitrárias quanto a se manter quieto e confinado.

Respeitar a necessidade e a importância da brincadeira, planejando espaços e oportunidades para atividades lúdicas dentro e fora de casa.

Transformar:

– Demandas como “Tire a mão daí!” em observação, nomeação da ação, convite ao compartilhamento de necessidades: “Vejo que você está interessado em brincar com isso, parece tão bonito! Infelizmente não podemos tocar, mas você pode olhar”

– Afirmações que julgam e embaraçam como “Que coisa feia você fazendo isso de novo” em reconhecimento dos sentimentos, orientação, oferecimento de ajuda: “Você gosta muito de subir no sofá para ver a rua, não é mesmo? Que tal trazer seu banco até a janela?”

– Culpabilização como “Você precisa me ouvir para ser um menino bonzinho” em reconhecimento de necessidades e intenções, e direcionamento: “Às vezes é difícil parar quando estamos fazendo algo que gostamos muito, que tal relaxarmos um pouco respirando bem fundo?”

– Punição e medo como “Se você fizer isso de novo eu vou te bater/ você vai ficar de castigo!” em promoção de soluções cooperativas e apoio: “Não vou deixar que você empurre seu amigo, o que podemos fazer para resolver essa questão? Estou aqui para ajudar”

 

Respeitar a criança é entender, como diz o professor T. Ripaldi, que a infância não é uma preparação para a vida, mas é a vida em curso. A criança é um membro ativo que participa da sociedade e com ela contribui desde o momento em que nasce.